quarta-feira, 18 de março de 2009

"O bom filho a casa torna" ----- "The good son returns home" (In English on the end of the page)

Como sou uma leitora voraz desde muito jovem, tenho muitos livros em minha casa. Num certo dia, olhando para as minhas estantes abarrotadas de livros, resolvi fazer uma doação para a Biblioteca Municipal da cidade próxima. Levei um bom tempo separando os livros que eu achava que não iria mais reler. Foi difícil escolher, porque sou muito apegada aos meus livros. Cada um deles tem uma história, uma referência e traz lembranças de uma fase da minha vida. Mas senti que eu estava sendo egoísta em manter estantes com tantos livros “adormecidos”, que talvez jamais fossem relidos. Eram tantos os assuntos, literatura, jornalismo, história, filosofia, mitologia, cinema, artes... Depois de quase um mês de triagem, enchi várias caixas de plástico com os livros para serem doados. Foi preciso várias idas à cidade para poder levar todos eles. O prédio da Biblioteca Municipal era antigo e estava muito mal conservado. Um novo prédio estava quase pronto para ser inaugurado. Doei os livros, preenchi a minha ficha de inscrição, caso algum dia eu quisesse “matar as saudades” e emprestar alguns deles. Recebi semanas mais tarde uma carta de agradecimento pela doação.

Mais ou menos depois de um ano, me bateu o desejo de reler o livro
“Contraponto” , de Aldous Huxley. Fui então à Biblioteca, agora em sua sede nova e fui procurar pelo “Contraponto” . Não achei nem esse nem nenhum outro livro do autor (eu havia doado todos os meus livros do Huxley). Fiquei intrigada e comecei a procurar também pelos livros de André Gide, Herman Hesse, Josué Montello, Mário de Andrade, e toda a coleção da Revista Civilização Brasileira, uma importante revista que circulou na década de 60 e muitos outros livros... em vão. Fui ao balcão, me identifiquei e perguntei à bibliotecária onde estavam os livros que eu havia doado. Recebi dela um olhar constrangido e a seguinte explicação para a ausência dos meus livros:
- No ano passado, um temporal inundou várias ruas aqui da cidade, (por acaso eu havia lido no jornal da cidade a notícia e visto as fotos das ruas alagadas) e todos os livros que a senhora doou já estavam catalogados e estocados numa sala, à espera da nossa mudança para este prédio novo. Mas o temporal foi tão grande que uma parte do telhado cedeu, a chuva caiu em cascata pelas paredes, encharcou todos os seus livros e não foi possível recuperá-los...
- Que pena, nada dura para sempre...
Fui embora triste, imaginando todos aqueles livros que me foram tão queridos, empapados, com as páginas coladas umas às outras, sendo jogados no lixo.


No final de semana seguinte, meu filho foi para Ribeirão Preto e me ligou de lá perguntando se eu queria alguma coisa, pois ele estava numa livraria.
- Quero sim, o “Contraponto”, do Aldous Huxley. Adoraria se você encontrasse...
Ele encontrou e o “Contraponto”, qual um filho pródigo, voltou aqui para a minha estante.
P
or Sonia A. Mascaro


Você pode também ler este texto no blog Quem Conta um Conto, Aumenta um Ponto.



As I'm a voracious reader from early childhood, I have many books in my house. One day, as I was looking on my crowded shelves for something to re-read, I decided to make a donation to the Library of City Hall. It took me a long time separating the books that I thought I would not re-read. The most difficult task has been separating the books, because I have such a special afection for my books. Each of them has a history and they brings me lovely memories of every phases of my life. I felt I was being selfish in keeping them around for me. Maybe they will never be re-read again. There were so many issues, literature, journalism, history, philosophy, mythology, movie, arts ... After almost a month of screening, I filled several boxes with many books to be donated. It took several back and forth to town to take them all to the Library. The building of the City Library was old and very badly maintained. A new building was almost ready to be opened. I did the donation, fill out my registration form, if some day I would like to borrow some book.

A few days later I received a letter of thanks from the Library. About one year later, I had the desire to re-read the book "Point Counter Point" , by Aldous Huxley. I went to the Library, now in its new headquarters to borrow the book. But I did not found it and any other author's book (I had donated all my Huxley's books). I was very intrigued and began to search for the books by André Gide, Herman Hesse, Josué Montello, Mário de Andrade, and the entire collection of Brazilian Civilization Magazine, a major magazine that circulated in the 60's and many other books ... all in vain. I went to the counter, I identified me and asked the librarian where the books were. She gave me an embarrassed smile as she apologised for the missing of these books:
- Last year, we had a big storm here in the city, that flooded many streets, (by chance I had read in the newspaper the news about the big rains and seen the photos of flooded streets) and all books that you donated were cataloged and stored in a room, waiting for our move to the new building. But the storm was so great that part of the roof fall down, the rain streaming over the walls like waterfalls, soak all the books and we could not recover them ...
- Oh! What a pity, I said, nothing lasts forever ...
I was sad thinking on my dear books, soggy, with the pages glued to each other, being thrown in the trash.

And then, at the end of next week, my son went to the city of Ribeirão Preto and from there he called me asking if I wanted anything from the bookstore.
- Yes, I would love the book "Point Counter Point" by Aldous Huxley. Fortunately he found the book and now the book "Point Counter Point", like a prodigal son, returned to my bookshelf.
By Sonia A. Mascaro



12 comentários:

expressodalinha disse...

Por isso nunca me desfaço de livros. Companheiros permanentes que às vezes apetecem. O conto é bom e tem uma moral: a chuva é analfabeta!

PJ disse...

Books are living things for sure for those of us that love to read. Not only love to read, but to OWN our books. They are friends. What a sad story about the storm and what a good son ;) to bring you back a book you were looking for. What a treasure!

Valdeir disse...

Sônia,

Que coisa, héin!

Para ser sincero, foram raríssimas as vezes em que doei livros meus. Tenho uma relação praticamente física com meus livros. Sempre volto para reler ao menos um trecho. Se eu doá-los seria como entregar um filho.

Para mim, o mais fácil é ajudar uma biblioteca em termos, digamos, pecuniários.

Abraços.

Merisi disse...

Oh, what heartbreak, such a terrible loss, a true tragedy! I am glad that at least one book is back home with you.

Gaspar de Jesus disse...

Olá Sonia
Vim agradecer mais uma gentil visita sua, e desejar para si um BOM FIM DE SEMANA

Elma Carneiro disse...

Sonia, não sou uma graaande leitora como você, mas tenho meus livros que amo.
Sempre ao redor de mim tenho dois ou três, de preferência sobre artes.
Alguns que leio há anos repetidamente e a cada leitura descubro algo mais, e realmente perder um livro que gostamos nos faz sentir menos ricos.
Seu conto é uma delícia de ler.
Certamante que voltarei sempre aqui.
Bjs

Neva disse...

thanks for shring your new blog with me! You do know that I work in a library, right? So I LOVE books.....I always have a book with me.....and how sad for all your books to get so wet but these things happen. We get many donations to our library but we are a small catholic high school and we can not take that many so we then donate them to the public library.

Pietro disse...

Sonia, books, especially the ones we read in our childhood, are a bit like friends, aren't they? It's terrible the lost of your books, but I'm glad you got back one of them.
Have a very good weekend!

Maria Augusta disse...

Sonia, que coisa mais triste, quantas pessoas não poderão lê-los. Também já doei livros à biblioteca e dei alguns a amigos. Mas tenho outros que me são preciosos, me acompanham o tempo todo.
Um grande beijo.

rauf disse...

it is indeed negligence of the library officials, its so sad that many of the books you donated were damaged Sonia.

I would like to suggest you a movie called 'serendipity' please watch it if you are free.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Sonia

Sou muito apegada aos livros. Talvez egoista por gostar de os ter. Apenas dei uma parte da biblioteca ao meu filho e mesmo assim ficou-me a saudade.
Admirei o tu gesto. Imagino a tua tristeza perante esse destino que tiveram.E imagino também o sabor especial em reveres o Aldous Huxley.


Abraço

OldOldLady Of The Hills disse...

Oh! That is just terrible...! I think I would have been deeply deeply upset! You had all of those beloved books for so long....And what you did was so very gemerous....And then....Oh Dear, Oh Dear...Gone from a terrible storm.
One wonders, was that meant to be?

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